Arte, Conhecimento, Crítica, Ética, Fórmulas, Humor, Ideias, Imagens, Informação, Literacia, Livros, Música, Números, Reflexão, Saber, Viagens… O Blogue das Bibliotecas do Agrupamento de Escolas Eugénio de Andrade!
Como se desenha uma casa, último livro de originais de Manuel António Pina, foi hoje distinguido, a título póstumo, com o prémio Teixeira de Pascoaes.
O prémio, instituído pela autarquia de Amarante, resultou de uma escolha entre 166 livros apresentados a concurso, de 159 autores, feita por um júri constituído pelos escritores Abel Barros Batista, António José Queiroz, João Paulo Sousa, Joana Matos Frias e Luís Adriano Carlos.
Deixamos-te também um excerto desta obra, já galardoada com o Prémio Camões 2011: O regresso «Como quem, vindo de países distantes fora de si, chega finalmente aonde sempre esteve e encontra tudo no seu lugar, o passado no passado, o presente no presente, assim chega o viajante à tardia idade em que se confundem ele e o caminho. Entra então pela primeira vez na sua casa e deita-se pela primeira vez na sua cama. Para trás ficaram portos, ilhas, lembranças, cidades, estações do ano. E come agora por fim um pão primeiro sem o sabor de palavras estrangeiras na boca.» Para saberes sobre a vida e obra de Teixeira de Pascoaes, consulta: http://pt.wikipedia.org/wiki/Teixeira_de_Pascoaes
Manuel António Pina - poeta, dramaturgo, cronista – galardoado com o Prémio Camões 2011, o maior prémio literário de língua portuguesa, um entre muitos outros prémios que recebeu – deixou-nos hoje. No entanto, um escritor corajoso, interessado pelo mundo e pelos homens, não parte. Permanece, na sua obra e na nossa memória.
Em sua homenagem, deixamos-te aqui um poema e parte de uma crónica, onde o autor nos fala, como sempre, de “coisas sólidas e verdadeiras”.
NA BIBLIOTECA
O que não pode ser dito
guarda um silêncio
feito de primeiras palavras
diante do poema, que chega sempre demasiadamente tarde,
quando já a incerteza
e o medo se consomem
em metros alexandrinos.
Na biblioteca, em cada livro,
em cada página sobre si
recolhida, às horas mortas em que
a casa se recolheu também
virada para o lado de dentro,
as palavras dormem talvez,
sílaba a sílaba,
o sono cego que dormiram as coisas
antes da chegada dos deuses.
Aí, onde não alcançam nem o poeta
nem a leitura,
o poema está só.
‘E, incapaz de suportar sozinho a vida, canta.’
COISAS SÓLIDAS E VERDADEIRAS
O leitor que, à semelhança do de O'Neill, me pede a crónica que já traz engatilhada perdoar-me-á que, por uma vez, me deite no divã: estou farto de política! Eu sei que tudo é política, que, como diz Szymborska, "mesmo caminhando contra o vento/ dás passos políticos/ sobre solo político". Mas estou farto […].
Por isso, decidi hoje falar de algo realmente importante: nasceram três melros na trepadeira do muro do meu quintal. Já suspeitávamos que alguma coisa estivesse para acontecer pois os gatos ficavam horas na marquise olhando lá para fora, atentos à inusitada actividade junto do muro e fugindo em correria para o interior da casa sempre que o melro macho, sentindo as crias ameaçadas, descia sobre eles em voo picado.
Agora os nossos novos vizinhos já voam. Fico a vê-los ir e vir, procurando laboriosamente comida, os olhos negros e brilhantes pesquisando o vasto mundo do quintal ou, se calha de sentirem que os observamos, fitando-nos com curiosidade, a cabeça ligeiramente de lado, como se se perguntassem: "E estes, quem serão?"
Em breve nos abandonarão e procurarão outro território para a sua jovem e vibrante existência. E eu tenho uma certeza: não, nem tudo é política; a política é só uma ínfima parte, a menos sólida e menos veemente, daquilo a que chamamos impropriamente vida.
Crónica publicada no dia 1 de Agosto de 2012 no JN (Texto com supressões)
E para conheceres um pouco sobre o autor e sobre a sua obra Como se desenha uma casa: