Mostrar mensagens com a etiqueta Dicionário. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Dicionário. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 29 de maio de 2014

RECEÇÃO AOS ALUNOS DE 4.º ANO


Que informações podemos recolher num dicionário? O que é a “etimologia”? E a “fonética”? A que fontes podemos recorrer para aceder ao conhecimento? O que são “aceções” de uma palavra? E o quivi é apenas um fruto? De onde provém? E o que significa “antípoda”? Qual a relação entre Portugal e a Nova Zelândia? Que língua falam os nativos deste país tão distante? Quem são os Maoris? Eis algumas das perguntas que sintetizam o programa multimédia apresentado a todas as turmas de 4.º ano das três escolas de primeiro ciclo que nos visitaram nos últimos dias.
Gostamos muito de receber todos estes alunos, curiosos e ávidos de mais conhecimento, e esperamos vê-los muitas vezes na nossa biblioteca!



terça-feira, 19 de junho de 2012

ABRIR O DICIONÁRIO: UM ATO DE RESISTÊNCIA E SALVAÇÃO



     Abro o exame de 9.º ano - prova 91 /2012 - e deparo-me com uma agradável surpresa: um texto saboroso de um dos autores atuais que mais aprecio - Gonçalo M. Tavares.
     Vale a pena ler. Deliciem-se!
     E, já agora, se desejarem salvar alguma palavra do esquecimento, este blogue também há de servir para isso!

    Uma palavra que durante décadas não seja utilizada na rua ou nos livros e permaneça apenas no dicionário tem um destino à vista: ser palavra-defunta. O dicionário pode ser visto, assim como uma antecâmara da morte.
     Como se algumas palavras estivessem ali paradinhas, quietas, mudas (no sentido literal e metafórico) porque não falam, ninguém fala por elas e ninguém as fala – com se estivessem, então, ali em fila, em linha, à espera do seu próprio velório.
     Ou podemos então mudar radicalmente de ponto de vista: o dicionário com os seus milhares e milhares de palavras, pode ser entendido como um depósito contra o esquecimento, um enorme arquivo. Eis, pois, um outro nome possível para o dicionário: instrumento para evitar o esquecimento.
   Imaginemos, por absurdo, que os dicionários desapareciam. Que uma qualquer ordem política determinava a sua destruição. Pois bem, seria uma matança. Em poucas décadas morreriam palavras como tordos. E se, no limite , não existisse qualquer livro, e ficássemos apenas […] com a linguagem das conversas rápidas , então o vocabulário ficaria reduzido ao mais essencial e mínimo: sim, não, comida, bebida, etc. Poderíamos assim, com a linguagem, expressar as necessidades do organismo mas certamente não as do espírito.
     Abrir o dicionário, pois, como ato de resistência e salvação: não vou ficar só com as palavras que ouço ou leio nos livros comuns – eis o que se poderia dizer. Abrimos ao acaso na página 310, e depois na página 315, sempre com a firme determinação de salvar duas ou três palavras de cada página. Como aquele que salva quem se está a afogar. E não é por acaso, aliás, que muitas das mitologias remetem o esquecimento para a imagem do rio. Uma água onde as coisas se afundam, deixam de ser vistas à superfície, desaparecem da vista. A passagem do rio utilizada também como metáfora do tempo que passa e leva e afunda as coisas que ainda há momentos estavam à nossa frente, bem vivas. Salvar palavras da água que engole e faz esquecer as coisas, eis o que é, em parte, abrir um dicionário.
     Dotados, então, de um espírito de nadador-salvador, abrimos ao acaso o dicionário e trazemos palavras mais ou menos raras – umas que já nadam há muito debaixo de água, com dificuldades, outras, mais resistentes, mais visíveis, mas ainda estimulantes (e algumas bem conhecidas dos nossos clássicos).
     Passemos pela letra M. Ao acaso e rapidamente.
     Morato – adjetivo que significa bem organizado.
     Maçaruco – (regionalismo) indivíduo mal trajado.
     Manajeiro – aquele que dirige o trabalho das ceifas os outros.
     Metuendo – que mete medo; terrível; medonho.
     E tropeçamos depois em palavras de significado popular e óbvio, mas bem divertido:
     Mata-sãos: médico incompetente; curandeiro.
     Eis, pois, a partir daqui, uma frase possível que quase poderíamos introduzir numa conversa de café (uma frase em letra M):
     - O manajeiro metuendo, maçaruco, aproximou-se do morato espaço do mata-sãos e disse: por favor, aqui não, vá curar mais além.
Gonçalo M. Tavares, Visão, 22 de setembro de 2011