terça-feira, 9 de abril de 2013

A PROPÓSITO DA SEMANA DA LEITURA: A BIBLIOTECA IDEAL

A Semana da Leitura iniciou-se ontem. Também por isso, apresentamos-te o testemunho de alguém cuja vida esteve sempre (e continua a estar) muito próxima dos livros: Vasco Graça Moura, autor nascido na Foz do Douro em 1942.


A Biblioteca Ideal

     A minha relação com os livros é muito antiga e bastante multifacetada. Desde muito pequeno que me habituei a ler e, durante muitos anos, fi-lo quase compulsivamente. Lia tudo o que havia lá em casa, tudo o que comprava, tudo o que me emprestavam. Comecei a ler livros aí pelos seis ou sete anos. Não apenas livros para crianças, mas coisas para adultos que o meu pai me passava para as mãos, às vezes com discordâncias  fortes  da  minha  mãe:  romances  do Camilo e do Eça, por exemplo, e outras coisas, como o D. Quixote e o Gil Blas de Santillana, que havia em casa de meus avós numas edições monumentais. E uma coisa romântica e delicodoce que dava pelo nome de A toutinegra do moinho. Os primeiros cinco ou dez escudos que nessa altura juntei (já lá vão mais de cinquenta anos…) foram utilizados na compra de uma versão portuguesa do Quentin Durwald, de Walter Scott, salvo erro sob o título de O cavaleiro da Escócia… O livro mais antigo que conservo dos que tinha nessa altura é uma Ilíada em versão francesa que um tio me ofereceu quando fiz doze anos. E desde então fiz das livrarias os meus lugares de peregrinação, fascínio, prazer, namoro (para desespero das namoradas) e… despesa. Mas nunca me arrependi de ter comprado um livro. Por vezes, só dez ou vinte anos mais tarde é que ele me revelou toda a sua utilidade, mas isso faz parte das regras. A relação multifacetada com o livro de que falo acima tem a ver com o facto de eu ter uma longa experiência de leitor, uma terrível experiência de comprador, uma razoável experiência de editor (…) e uma aceitável experiência de autor (cerca de sessenta títulos publicados desde 1963, sem contar a colaboração em jornais e revistas). Como pode imaginar-se, tenho uma razoável biblioteca que cobre áreas muito variadas: literatura; história da literatura, história propriamente dita, história da arte, ensaio, filosofia e política são as secções mais importantes, em todas as línguas em que consigo ler (e procuro não ler traduções quando as obras originais estão disponíveis nessas línguas): além do português, o francês, o inglês, o italiano, o espanhol e o alemão. Há cerca de duas semanas fiz as contagens à metragem de estantes de que estou a precisar, porque os livros se acumulam um pouco por toda a parte, à maneira dos cogumelos. Preciso, neste momento, de ter 413 metros de estantes e só disponho de cerca de 250. Em resultado, tenho de recorrer a “filas duplas” nalgumas secções da minha biblioteca, o que por vezes me torna muito difícil o acesso a certos títulos. A biblioteca ideal é constituída por todos os livros que já tenho e pelos que ainda me faltam mais os que nunca chegarei a ter…
Vasco Graça Moura, in “Casa Cláudia”, outubro de 2001
URL da imagem:http://imagens2.publico.pt/imagens.aspx/236282?tp=UH&db=IMAGENS  

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